Introdução & Nomenclatura do Buriti
No grande panteão das palmeiras brasileiras, poucas são tão icônicas, tão ecologicamente significativas e tão profundamente entrelaçadas com a cultura e a sobrevivência humana quanto o Buriti, cientificamente conhecido como Mauritia flexuosa. Este nome, “Buriti”, de origem Tupi, já carrega em si a promessa de fartura. Mas sua identidade se espalha por uma infinidade de nomes que refletem sua importância em toda a América do Sul: Miriti ou Muriti, no Pará; Carandá-guaçu, no Pantanal; “Moriche” na Venezuela; “Aguaje” no Peru. Cada nome é um testemunho de como esta palmeira é um pilar de vida. Ela é a “árvore da vida” do Cerrado, pois onde há um buritizal, há água, e onde há água, há vida. Conhecer o Buriti é mais do que aprender sobre uma espécie; é entender a ecologia das “veredas”, os oásis lineares que ele próprio cria e define, e é valorizar uma planta que oferece tudo: fruto para comer, suco para beber, óleo para curar, palha para tecer e abrigo para viver.
A nomenclatura científica, Mauritia flexuosa L.f., nos conta a história de sua identidade botânica. O gênero Mauritia foi nomeado em homenagem ao conde João Maurício de Nassau-Siegen, governador do Brasil Holandês no século XVII, um grande incentivador das artes e das ciências, que promoveu uma das primeiras grandes expedições para documentar a natureza brasileira. O epíteto específico, flexuosa, vem do latim e significa “flexível” ou “sinuoso”, uma referência à forma como suas grandes folhas se movem graciosamente com o vento. A história taxonômica da espécie inclui o sinônimo *Mauritia vinifera*, que significa “a palmeira que porta vinho”, uma alusão direta à bebida fermentada, o “vinho de buriti”, que é feita a partir de seus frutos. Estudar o Buriti é reconhecer um dos maiores patrimônios naturais e culturais do Brasil. É valorizar uma espécie que é a base de uma cadeia produtiva sustentável, baseada no extrativismo, que gera renda para milhares de famílias e que depende fundamentalmente da conservação das veredas e dos mananciais de água. Cada semente de Buriti é uma promessa de água limpa, de alimento nutritivo e da continuidade de uma cultura milenar.
Aparência: Como reconhecer o Buriti
A identificação do Buriti na paisagem é o reconhecimento de uma majestade singular, uma palmeira de porte nobre e de características inconfundíveis. A Mauritia flexuosa se apresenta como uma palmeira de estipe (tronco) solitário, ereto e colunar, que se eleva a alturas de 15 a 25 metros, podendo chegar a 35 metros. O estipe é grosso e robusto, com um diâmetro que pode variar de 23 a 80 cm, e sua superfície é lisa a levemente anelada. Na base, é comum a formação de um cone de raízes aéreas que ajudam na sustentação da palmeira em solos encharcados. A copa é um espetáculo à parte: é grande, densa e perfeitamente esférica, formada por 10 a 20 folhas de uma beleza arquitetônica.
As folhas do Buriti são do tipo costapalmada ou flabeliforme, ou seja, são grandes folhas em formato de leque. Cada folha pode ter de 2 a 4 metros de pecíolo (o “cabinho”) e uma lâmina foliar que se divide em 45 a 230 segmentos longos e pendentes, conferindo à copa uma aparência ao mesmo tempo imponente e graciosa, que balança com o vento. A floração é um evento grandioso. As inflorescências são interfoliares (surgem entre as folhas), muito grandes e ramificadas, podendo atingir até 3 metros de comprimento. O Buriti é uma espécie dioica, o que significa que existem plantas masculinas e plantas femininas. As inflorescências masculinas e femininas são semelhantes, mas as flores são diferentes. O grande espetáculo visual, no entanto, é o fruto. O fruto do Buriti é uma drupa de formato elipsoide a oblongo, com cerca de 5 cm de diâmetro. Sua característica mais marcante e inconfundível é a casca (epicarpo), que é coberta por escamas sobrepostas, de cor castanho-avermelhada e de um brilho intenso, que se assemelham às escamas de um réptil ou de um pinha exótica. Esta casca protege uma polpa carnosa, de cor amarelo-alaranjada, muito rica em óleo. No interior da polpa, encontra-se uma única semente (o caroço), dura e ovalada. Os frutos surgem em cachos enormes e pesados, que pendem da copa da palmeira, um verdadeiro tesouro de cor e de nutrição.
Ecologia, Habitat & Sucessão do Buriti
A ecologia da Mauritia flexuosa é a de uma espécie intrinsecamente ligada à água, uma verdadeira “engenheira de ecossistemas” que cria e define seu próprio habitat. O Buriti é uma palmeira higrófila, ou seja, que ama a água. Ela é uma espécie indicadora de solos permanentemente encharcados e de nascentes de rios. Onde quer que se veja um agrupamento de buritis, pode-se ter a certeza da presença de água na superfície ou muito próxima a ela. Seu habitat no Brasil abrange os biomas Amazônia, Caatinga e Cerrado, sempre associada a solos mal drenados. É a espécie que define a paisagem das veredas, que são formações vegetais que ocorrem ao longo das linhas de drenagem nos chapadões do Cerrado, funcionando como verdadeiros oásis. Também forma extensos palmeirais em áreas de igapó e em campos inundáveis na Amazônia.
No que tange à sucessão ecológica, o Buriti é considerado uma espécie clímax edáfica. Isso significa que, naquelas condições específicas de solo e de água que ela requer, ela é a espécie dominante e que representa o estágio final e estável da comunidade vegetal. A formação de um “buritizal” é um processo lento, que depende da dispersão das sementes e do estabelecimento das plântulas em um ambiente muito específico. As interações do Buriti com a fauna são um dos pilares da biodiversidade dos ecossistemas onde ocorre. Suas inflorescências são polinizadas por insetos, como abelhas e besouros. Seus frutos, no entanto, são um dos mais importantes recursos alimentares para a fauna. Uma vasta gama de animais se alimenta de sua polpa rica em óleo e vitaminas. Aves, como araras, papagaios, tucanos e jacus, se banqueteiam com os frutos. Mamíferos, como antas, catetos, queixadas, macacos e veados, consomem os frutos que caem no chão. Ao fazerem isso, eles atuam como os principais dispersores da palmeira (zoocoria), garantindo que suas sementes sejam levadas para novos locais. Além disso, as touceiras e os troncos mortos de Buriti servem de abrigo e local de nidificação para inúmeras espécies, incluindo a arara-canindé, que tem uma forte associação com os buritizais. A conservação das veredas e dos buritizais é, portanto, essencial para a conservação de toda a fauna do Cerrado e de outros biomas.
Usos e Aplicações do Buriti
A Mauritia flexuosa é, com toda a certeza, uma das plantas de uso múltiplo mais completas e importantes do Brasil, uma verdadeira “árvore da vida” da qual se aproveita praticamente tudo. O principal uso do Buriti na atualidade é o alimentar e cosmético, através da extração do óleo e da polpa de seus frutos. A polpa, de cor alaranjada intensa, é utilizada para a produção de sucos, doces, picolés, sorvetes e licores. Dela também se extrai o famoso óleo de buriti, um dos óleos vegetais mais ricos em carotenoides (pró-vitamina A) do mundo, superando a cenoura. Este óleo é um poderoso antioxidante, utilizado na culinária e, cada vez mais, na indústria de cosméticos de alto valor agregado, em produtos para a pele com ação antienvelhecimento, cicatrizante e protetora contra os raios UV. A polpa também pode ser desidratada para a produção de uma farinha nutritiva.
As folhas do Buriti são outra fonte de riqueza. As folhas jovens, ainda fechadas (a “flecha”), fornecem uma fibra fina, sedosa e muito resistente, conhecida como “seda de buriti”. Esta fibra é a matéria-prima para um artesanato de beleza e sofisticação admiráveis, utilizado na confecção de bolsas, chapéus, esteiras, jogos americanos, biojoias e uma infinidade de outros objetos que são uma importante fonte de renda para as comunidades artesãs. As folhas mais velhas são utilizadas para a cobertura de casas rústicas. O estipe (tronco) é leve e resistente, sendo utilizado em pequenas construções rurais. O interior esponjoso do tronco de palmeiras mortas é o habitat da larva de um besouro, o “gongo” ou “tapuru”, que é colhido e consumido por populações indígenas e locais como uma fonte rica em proteína. O palmito do Buriti é comestível, mas, por ser uma palmeira de estipe único, sua extração é uma prática predatória que causa a morte da planta e não deve ser incentivada. A grande riqueza do Buriti está em seus frutos e em suas folhas, recursos que podem ser explorados de forma sustentável, garantindo a conservação da palmeira e a geração de renda para o povo que vive em harmonia com ela.
Cultivo & Propagação do Buriti
O cultivo do Buriti é um projeto que exige paciência e, acima de tudo, a escolha de um local adequado, pois é uma palmeira com uma exigência muito específica de água. A propagação da Mauritia flexuosa é feita por sementes, que são os caroços encontrados dentro dos frutos. O processo de germinação é notoriamente lento e irregular, um reflexo de sua estratégia de vida de espécie de longa duração. O primeiro passo é a coleta dos frutos, que deve ser feita quando eles estão maduros e caem da palmeira. As sementes devem ser extraídas da polpa, um processo que pode ser facilitado deixando os frutos de molho em água por alguns dias para amolecer a polpa, que deve ser completamente removida.
As sementes do Buriti possuem uma dormência que combina fatores físicos (a dureza do caroço) e fisiológicos. A germinação pode levar de 6 meses a mais de 2 anos. Para tentar acelerar o processo, alguns métodos podem ser utilizados, como a imersão das sementes em água por vários dias, trocando a água diariamente, ou a escarificação mecânica do caroço. A semeadura deve ser feita em recipientes individuais, como sacos de polietileno de bom tamanho, utilizando um substrato rico em matéria orgânica e que retenha muita umidade. O fator mais crítico para o sucesso é a manutenção de uma umidade constante e elevada. Os recipientes podem ser mantidos em um local de meia-sombra e o substrato nunca deve secar. O desenvolvimento das mudas é lento nos primeiros anos. Elas devem permanecer no viveiro por pelo menos 1 a 2 anos, até que estejam com um porte robusto para o plantio no local definitivo. O plantio no campo deve ser realizado em áreas permanentemente úmidas, encharcadas ou em margens de corpos d’água. Plantar um Buriti em um local seco é um insucesso garantido. Ele é a árvore perfeita para a recuperação de nascentes e de veredas, e para o paisagismo de grandes áreas com lagos e espelhos d’água. Cultivar um Buriti é um legado, um compromisso de longo prazo com a restauração dos nossos recursos hídricos e com a perpetuação de uma das mais importantes e simbólicas palmeiras do Brasil.
Referências
• Lorenzi, H., et al. (2010). Flora Brasileira: Arecaceae (Palmeiras). Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum.
• Henderson, A., Galeano, G., & Bernal, R. (1995). Field Guide to the Palms of the Americas. Princeton: Princeton University Press.
• Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/>. Acesso contínuo para a verificação da nomenclatura oficial, sinônimos e distribuição geográfica da espécie.
• Publicações e documentos técnicos da Embrapa Cerrados e da Embrapa Amazônia sobre o Buriti, seu potencial econômico, seus usos e as técnicas de manejo e cultivo.
• Artigos científicos sobre a ecologia das veredas, a dispersão de sementes e a composição do óleo de buriti, disponíveis em bases de dados como SciELO e Google Scholar.
• Livros sobre a cultura e o artesanato dos povos do Cerrado e da Amazônia, que frequentemente destacam o uso da palha e do fruto do Buriti.


















